Desde 2018, alguns governos — naquilo que podemos chamar apenas de “esforço titânico e tragicômico” — vêm despejando fortunas em laboratórios quânticos com a finalidade de decifrar a criptografia do Bitcoin. Um empreendimento digno de aplausos, se não fosse pelo pequeno detalhe: é matematicamente impossível.

Imaginem os ministros, sentados em salas luxuosas, examinando gráficos que mais parecem mapas estelares, acreditando que cada átomo manipulado e cada qubit excitado os aproximaria da chave digital. Mal percebem que essa chave não é um segredo escondido, mas um mito: acertar seria equivalente a apontar qual fragmento aleatório de uma galáxia contém a senha do universo. E, como qualquer leitor minimamente instruído sabe, galáxias são fragmentadas, vastas e indiferentes aos planos humanos.

Entre gastos astronômicos, laboratórios subterrâneos que mais parecem cenários de filmes de ficção científica e satélites que orbitam silenciosos, a mensagem é clara: persistir nesse esforço é a própria definição de futilidade elevada à enésima potência. É quase poético, se não fosse trágico: bilhões investidos, cérebros prodigiosos a todo vapor, e tudo para atingir um objetivo que jamais será alcançado.

Talvez a beleza esteja na obstinação: ver Estados-nação competir como crianças obcecadas, acreditando que a galáxia inteira conspira a favor de sua curiosidade, é um espetáculo que mistura risos e lágrimas. No fim, a ironia é deliciosa: quanto mais tentam decifrar o Bitcoin, mais evidente se torna que a verdadeira chave nunca esteve ao alcance — exceto, talvez, em algum fragmento perdido de uma galáxia que nem o mais audacioso telescópio poderia revelar.

E assim, entre foguetes e qubits, a história registra mais um capítulo da nobre e inútil obsessão humana por aquilo que, desde o início, sempre esteve fora de alcance.

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