O ouro (XAU/USD) registrou uma queda superior a 7% em relação à máxima histórica próxima de US$ 5.590, mas segue negociado acima de US$ 5.160, mantendo desempenho expressivamente melhor que ações e até mesmo que o Bitcoin na comparação mês a mês. O canal de alta que direciona o preço desde o fim de dezembro se mantém intacto, sem alteração significativa no posicionamento institucional.

Apesar disso, a quebra em direção a novos recordes segue fora do radar. O motivo não é a estrutura ou demanda do ouro: é provavelmente o petróleo. Veja como tudo se conecta.

Canal de alta do ouro resiste a todos os testes

O ouro segue negociado em um canal de alta no gráfico diário desde o final de dezembro de 2025. O canal foi testado em duas ocasiões: uma na alta, quando o preço saltou para US$ 5.590, marcando o recorde em 29 de janeiro, e outra na baixa, com movimento de vendedores até US$ 4.400 no início de fevereiro. Ambas as correções foram revertidas em poucos dias, evidenciando forte interesse nas extremidades do canal.

Com o metal negociado a US$ 5.150, o ouro se posiciona no meio do canal. A estrutura permanece positiva; todas as quedas foram aproveitadas e nenhum fechamento diário ficou abaixo da linha desde a formação do padrão.

No entanto, a configuração sozinha não explica o desempenho acima da média, com alta de quase 8% mês a mês.

Para entender isso, é preciso observar o que deveria pressionar o ouro, mas não o faz.

Petróleo está mudando o tradicional roteiro do ouro

O Índice do Dólar Americano (DXY) subiu de 95,55 no fim de janeiro para 99,13 na tarde desta reportagem. O indicador se move em um canal de alta próprio, com extensões que podem chegar a 100,43.

Ao mesmo tempo, o rendimento do título do Tesouro americano de 10 anos (US10Y) forma um padrão de ombro-cabeça-ombro invertido no gráfico diário, recuperando de 3,92% no início de março para 4,12%, com alvo de alta entre 4,23% e 4,35%.

Normalmente, dólar em valorização e juros ascendentes pressionam o ouro. Ainda assim, o ouro consegue absorver esses efeitos de forma relativamente eficiente, devido à natureza desta valorização do dólar.

A alta do DXY tem origem no petróleo. Tensão crescente em torno do conflito Estados Unidos-Irã teria impulsionado o preço do barril. Como o petróleo é cotado globalmente em dólar, o avanço eleva expectativas inflacionárias, fortalece a moeda americana e empurra rendimentos para cima. Isso rompe a dinâmica habitual em que a incerteza geopolítica enfraquece o dólar e impulsiona o ouro.

BREAKING: Brent oil prices surge above $82.50/barrel with gas prices now up nearly +20% since January.

Keep watching oil prices as a leading indicator for a potential "deal" or market intervention.

The world simply cannot afford oil prices rising toward $100/barrel. pic.twitter.com/MEOXt0z4Iu

— The Kobeissi Letter (@KobeissiLetter) March 5, 2026

O metal chegou a subir até US$ 5.400 com o choque inicial do conflito, mas não conseguiu se sustentar, pois o dólar manteve trajetória de alta. A busca por proteção ainda sustenta o ouro por baixo, enquanto a relação entre petróleo, inflação e dólar limita o avanço. Além disso, nos últimos pregões, o Bitcoin teve desempenho superior ao ouro, mostrando melhor resiliência frente à força da moeda americana.

Apesar disso, o preço segue estável na última semana, aguardando movimento direcional.

Para o ouro voltar a subir, essa cadeia precisa ser desfeita. Uma possível trégua pode derrubar o petróleo, atenuar as expectativas de inflação, levar o DXY abaixo de 98 e os juros para menos de 4%. Isso abriria espaço para avanço, removendo restrições ao mesmo tempo. E, nesse cenário, o suporte seguiria intacto.

Instituições já estão no mercado e não pretendem sair

O relatório Commitment of Traders (COT), divulgado semanalmente pela Commodity Futures Trading Commission (CFTC), aponta que o Managed Money — fundos hedge e Commodity Trading Advisors — mantém posição líquida comprada de cerca de 96 mil contratos (diferença entre compras e vendas) em contratos futuros de ouro da COMEX, segundo dados de 24 de fevereiro (última divulgação do COT).

A posição variou pouco na comparação semanal — fundos hedge liquidaram volumes pequenos tanto em comprados quanto vendidos, em movimento típico de ajuste de carteira, e não de saída direcional.

O número total de contratos em aberto aumentou em mais de 13 mil, alcançando 420.182, indicando entrada de novo capital via instituições.

Alta no volume em aberto com preço estável (semana a semana) sugere convicção entre investidores institucionais. Na prata, o quadro é outro: investidores mantêm apenas 8.500 contratos líquidos comprados, enquanto o interesse está em queda.

BREAKING: Gold prices have now risen for 7 consecutive months, the longest streak on record.

Over this period, gold prices have risen +61%, or nearly +9% per month on average.

By comparison, the previous best was 6 consecutive months, seen in the early 2000s and the 1970s.… pic.twitter.com/xEDu3ktTVT

— The Kobeissi Letter (@KobeissiLetter) March 5, 2026

A demanda institucional vai além dos mercados futuros. Em 5 de março, surgiram informações de que integrantes do governo Trump intermediaram um acordo de milhões de dólares para exportar até mil quilos de ouro venezuelano aos Estados Unidos, indicando que a procura por ouro físico entre países cresce junto ao posicionamento especulativo (com aumento na posição aberta do COT).

TRUMP OFFICIALS BROKER MULTIMILLION DOLLAR DEAL TO EXPORT UP TO 1,000 KILOGRAMS OF VENEZUELAN GOLD TO U.S. MARKETS

— The Wolf Of All Streets (@scottmelker) March 5, 2026

O índice ouro-prata (XAUXAG) confirma a rotação. No gráfico diário, o próprio índice forma um padrão de ombro-cabeça-ombro invertido, com uma linha de pescoço próxima de 64,71. Atualmente em 61,84, após forte avanço desde o fim de fevereiro, um rompimento acima de 64,71 projeta o alvo para 69,54 e 75,51, favorecendo o ouro.

O ouro atua como reserva de valor e proteção contra inflação, enquanto cerca de 60% do consumo da prata tem uso industrial.

Com temores de recessão e preocupações sobre guerra comercial, instituições podem optar pelo caráter defensivo do ouro, em vez da exposição cíclica da prata. O rompimento do índice sinaliza que a próxima onda de fluxos deve priorizar o ouro, conferindo maior potencial de valorização imediata caso as pressões diminuam.

Níveis de preço do ouro para acompanhar agora

A tendência do ouro segue favorável dentro do canal, mas a confirmação do rompimento depende dos efeitos da cotação do petróleo no dólar e nos rendimentos.

A primeira resistência está em US$ 5.220 na retração de 0,618 de Fibonacci. A barreira crucial é US$ 5.440, no ponto de 0,786, nível que barrou a alta em 29 de janeiro. Desde então, o ouro não superou essa marca. Um fechamento consistente acima de US$ 5.440 mudaria a configuração de lateralização para tendência de valorização.

Acima de US$ 5.440, o caminho abre para US$ 5.730 em 1,0 de Fibonacci e para a máxima histórica. A extensão de 1,618 projeta o alvo em US$ 6.540, enquanto o movimento estimado pelo canal chega a US$ 6.960, uma alta próxima de 19% em relação à tendência atual. Esses patamares se tornam plausíveis se o petróleo recuar, o DXY cair de 98 e os rendimentos se mantiverem abaixo de 4%.

Pela tendência de baixa, uma perda dos US$ 5.060 projeta o preço do ouro para US$ 4.910. Um fechamento abaixo desse patamar quebraria o canal pela primeira vez desde dezembro. Esse cenário só se fortalece caso DXY e rendimentos subam ainda mais.

Estrutura, posicionamento e o índice apontam para cima. O único obstáculo entre o ouro e US$ 6.500 é o elo petróleo-dólar-rendimento, cuja força depende exclusivamente das tensões geopolíticas que o sustentam.

O artigo Caminho do preço do ouro além de US$ 6.500 passa pelo mercado de petróleo foi visto pela primeira vez em BeInCrypto Brasil.