Para entender o cenário geopolítico atual no Leste Europeu, é preciso analisar a transição da ordem mundial após a Segunda Guerra Mundial e as tensões que moldaram a fronteira entre a Rússia e o Ocidente.
O Equilíbrio de Poder: OTAN vs. Pacto de Varsóvia
Após 1945, o mundo se dividiu em dois grandes blocos militares:
OTAN (1949): A Organização do Tratado do Atlântico Norte foi criada pelos EUA e países europeus ocidentais como uma aliança de defesa mútua contra o avanço do comunismo. Seu princípio central é o Artigo 5º: um ataque contra um membro é um ataque contra todos.
Pacto de Varsóvia (1955): A resposta da União Soviética (URSS). Uma aliança militar entre a URSS e seus estados satélites na Europa Oriental (como Polônia, Alemanha Oriental e Hungria), consolidando o domínio soviético sobre aquela região.
1994: O Ponto de Inflexão e Bill Clinton
Com a dissolução da URSS em 1991, o Pacto de Varsóvia deixou de existir. No entanto, a OTAN não se dissolveu. Em 1994, sob a administração de Bill Clinton, ocorreu um movimento crucial que muitos analistas russos consideram a "quebra de uma promessa verbal" feita durante a reunificação alemã (a de que a OTAN não se expandiria "nem um centímetro para o leste").
Naquele ano, Clinton lançou a Parceria para a Paz, um programa que abriu as portas para que ex-membros do bloco soviético se aproximassem da OTAN. Para a Rússia, isso foi visto como o início de um cerco estratégico.
O Papel da Ucrânia e o Memorando de Budapeste
Também em 1994, foi assinado o Memorando de Budapeste. A Ucrânia concordou em entregar o terceiro maior arsenal nuclear do mundo (herdado da URSS) em troca de garantias de segurança e respeito às suas fronteiras por parte dos EUA, Reino Unido e Rússia.
A Guerra por Procuração (Proxy War)
A perspectiva do Kremlin é que a expansão da OTAN, ao chegar às fronteiras da Ucrânia, transformou o país em um "posto avançado" do Ocidente.
O Cerco Geopolítico: De acordo com essa visão, o interesse de Washington em incluir a Ucrânia na esfera ocidental visava neutralizar a capacidade militar russa e remover sua zona de amortecimento natural.
A "Guerra por Procuração": A Rússia argumenta que o conflito não é apenas entre Moscou e Kiev, mas uma guerra dos EUA/OTAN contra a Rússia, utilizando o território e os soldados ucranianos para desgastar o poder russo sem que as potências ocidentais precisem enviar suas próprias tropas diretamente.
A Invasão: "Dilema de Segurança"
A Rússia sustenta que se viu obrigada a intervir militarmente porque a "linha vermelha" foi cruzada. No realismo geopolítico, isso é chamado de Dilema de Segurança: quando o aumento da segurança de um lado (Ucrânia buscando a OTAN) é percebido como uma ameaça existencial imediata pelo outro (Rússia).
Para Moscou, a possibilidade de bases da OTAN e sistemas de mísseis em solo ucraniano deixaria a Rússia vulnerável a um ataque sem tempo de reação, justificando, sob sua ótica, a invasão como um ato de "autodefesa preventiva".